Existe uma inversão útil para entender esse serviço: o concreto não é a parte difícil.
Concreto é frágil à tração. Sob impacto ou pressão, ele fragmenta com relativa facilidade, e uma peça pode ser destruída em minutos.
Quem resiste é o aço. Ele não fragmenta: deforma, e continua ligando os pedaços. É por isso que uma laje inteiramente triturada ainda fica pendurada, e por isso que a demolição só termina quando alguém corta a armadura.
Todo o resto (ferramenta, produtividade, preço, receita) deriva daí.
O esforço se estima pela armadura, não pelo concreto
A pergunta comum na visita técnica é sobre a resistência do concreto. É a pergunta menos informativa que se pode fazer.
O que prevê o esforço é quanto aço existe e como ele está disposto:
Pilar. Barras longitudinais grossas, amarradas por estribos próximos uns dos outros. É o elemento mais trabalhoso por volume de toda a estrutura.
Viga. Armadura longitudinal e estribos, com concentração maior junto aos apoios, exatamente onde a máquina precisa chegar para desligar a peça.
Laje. Malha distribuída, de bitola menor. Fragmenta com muito menos esforço por metro cúbico.
Fundação. Armadura pesada, e ainda está enterrada, o que soma escavação ao serviço.
Estimar a obra por uma média de metros cúbicos esconde justamente onde o custo se concentra. Duas estruturas com o mesmo volume e taxas de armadura diferentes não são o mesmo serviço.
Concreto antigo costuma ser mais duro, não menos
A intuição diz que estrutura velha demole mais fácil. Ela erra com frequência.
O concreto continua ganhando resistência por anos após a cura, e uma peça de décadas pode estar mais dura que uma recente.
O que muda a favor é outra coisa: a aderência entre aço e concreto. Em peça carbonatada ou com armadura corroída, essa ligação está comprometida, e a separação fica mais fácil. Estrutura antiga também costuma ter taxa de armadura menor que a de hoje, o que reduz o corte.
Os efeitos vão em direções opostas. A idade, sozinha, não permite prever o esforço, o que permite é olhar a armadura.
Cada ferramenta faz uma coisa diferente com o aço
É esse o critério de escolha, e não a produtividade isolada:
Rompedor. Fragmenta por impacto. Máxima produtividade em concreto massivo, e deixa a armadura intacta, o que significa que o corte ainda está por fazer. Transmite muita vibração.
Pulverizador. Tritura por pressão e separa o aço do concreto no mesmo movimento. Vibração baixa. É a escolha perto de vizinho, e já entrega o material segregado.
Tesoura. Corta barra e perfil, onde o rompedor apenas amassa.
Serra diamantada. Separa sem impacto, quando o corte precisa ser limpo e a peça vizinha precisa ficar intacta.
Uma obra bem conduzida usa mais de um. Trocar de implemento no meio do serviço é sinal de método, não de improviso.
A separação é o que transforma custo em receita
Aqui está o efeito econômico que costuma passar despercebido na hora de escolher o método.
Concreto armado gera dois materiais com destinos opostos:
- entulho de concreto, que é classe A no CONAMA 307, pode ser reciclado, e custa transporte e destinação
- sucata de aço, que tem mercado estabelecido e preço por tonelada
O que decide se o segundo vira receita é a limpeza da separação. Aço limpo vale bem mais que aço com concreto agregado. Material misturado não só perde valor como volta a pagar transporte como resíduo.
Como pulverizador e tesoura separam durante a demolição e o rompedor não, a escolha do implemento afeta a receita da obra, e não apenas o prazo. Em estrutura com armadura pesada, essa diferença é relevante o suficiente para entrar na conta.
Protensão é outro material
Aqui a diferença deixa de ser de produtividade e passa a ser de segurança.
Concreto protendido contém cabos de aço sob tensão permanente. Cortar um deles sem procedimento libera energia acumulada de forma súbita.
O indício é geométrico: peça fina demais para o vão que vence. Diante dele, a sequência é confirmar o traçado dos cabos por documentação ou detecção, aliviar a protensão de forma controlada, e só então cortar.
Tratar peça protendida como concreto armado comum é o erro mais grave que se pode cometer nesse serviço.
O que resta depois
Concreto armado deixa pouco a interpretar e muito a decidir sobre o que está abaixo do chão.
Bloco, sapata, estaca e piso de subsolo são concreto armado com armadura pesada, e a decisão de removê-los ou não é do projeto da obra seguinte. Contratar “demolição da estrutura” sem essa definição é a origem mais comum de divergência de escopo nesse tipo de serviço.
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