Toda demolição tem uma etapa que acontece onde ninguém enxerga. Na demolição de fundações e sapatas, essa etapa é o serviço inteiro.
É a única categoria em que se trabalha integralmente abaixo do nível do terreno, demolindo um elemento que não se vê antes de escavar, cuja geometria raramente está documentada, e que pode estar apoiado no mesmo solo que sustenta a construção vizinha.
O que está enterrado quase nunca tem planta
A planta de fundação é a que menos sobrevive ao tempo. Some por reforma, por troca de proprietário, por incêndio de arquivo, e quando existe raramente registra o reforço que foi executado depois que a obra começou a apresentar problema.
Isso significa que a investigação precisa combinar duas fontes:
- documentação, quando houver, considerando que ela descreve o projeto e não necessariamente o executado
- poço de reconhecimento, que é abertura pontual em local escolhido, revelando tipo, dimensão e profundidade reais
O segundo custa uma fração do que custa descobrir a mesma informação com a escavadeira parada em campo e o cronograma correndo.
Cada tipo sai de um jeito
A palavra fundação cobre soluções com comportamentos bem diferentes na hora de remover:
Sapata isolada é um bloco de concreto armado alargado sob o pilar. Sai por rompimento, e o que costuma surpreender é a largura, sempre maior que a do pilar que ela sustentava.
Bloco sobre estacas tem o bloco na superfície e as estacas descendo vários metros. Remover o bloco é rotina; remover as estacas é outro serviço, com outro equipamento, e frequentemente não é necessário.
Radier é uma laje contínua sob toda a edificação. Comporta-se mais como piso espesso e muito armado do que como fundação isolada, e o volume por metro quadrado é alto.
Tubulão é um poço de concreto com base alargada, às vezes com vários metros de profundidade. Remoção total raramente se justifica.
Baldrame é a viga que liga as fundações. É o elemento mais fácil de remover e o que mais amarra o conjunto enquanto está no lugar.
Até onde descer é uma decisão de projeto
A pergunta que mais muda o orçamento não é como remover. É quanto remover.
A remoção total se justifica em três situações: quando a fundação nova ocupa posição conflitante com a antiga, quando haverá subsolo na cota da estrutura existente, ou quando o que está enterrado compromete a capacidade do solo para a nova edificação.
Fora disso, é comum e tecnicamente correto remover até uma cota definida e deixar o restante enterrado. Estaca e tubulão profundos, em especial, costumam ficar.
Quem decide isso é o projetista da obra nova, não quem demole. Levar essa pergunta ao projeto antes de orçar a demolição evita pagar por remoção que ninguém pediu.
O vizinho está mais perto do que a divisa sugere
Este é o risco central do serviço, e ele é geométrico.
Bloco e sapata são bem mais largos que o pilar que sustentam. Num lote urbano, com pilar próximo à divisa, a fundação frequentemente avança até quase a linha do terreno, e às vezes passa dela.
O efeito de escavar ao lado de uma fundação vizinha não é atingi-la diretamente. É remover o confinamento lateral do solo que a apoia. O solo perde contenção, se desloca em direção à cava, e a fundação ao lado recalca. O sintoma aparece na construção vizinha como trinca, e pode aparecer semanas depois do serviço terminado.
Por isso três procedimentos são padrão, e não excesso de cuidado:
- vistoria prévia com registro fotográfico datado das construções vizinhas
- contenção da escavação junto à divisa, dimensionada antes de abrir
- escavação em trechos, em vez de abrir toda a extensão junto à divisa de uma vez
Água muda tudo
Fundação frequentemente está abaixo do nível do lençol freático, e nesse caso a escavação exige rebaixamento ou bombeamento contínuo.
Rebaixar tem efeito fora do terreno: reduzir o nível de água sob a construção vizinha pode provocar recalque nela, pelo mesmo mecanismo do parágrafo anterior. Por isso rebaixamento em área urbana costuma exigir estudo e acompanhamento, e não é decisão de campo.
Há ainda o efeito mecânico. Cava com água tem parede instável, o que aumenta a exigência de contenção e reduz o tempo que a escavação pode permanecer aberta.
A cava aberta é passivo até ser fechada
O serviço não termina quando a fundação sai. Termina quando o buraco é fechado corretamente, e essa etapa é a mais subestimada.
Material de demolição não serve como aterro sem tratamento. Entulho lançado na cava gera vazios entre os fragmentos, e esses vazios se acomodam com o tempo. O resultado é recalque, que aparece na obra seguinte, depois de pronta, quando corrigir custa muito mais.
O reaterro correto usa material adequado, lançado e compactado em camadas, com grau de compactação definido pelo que vai ser construído em cima. É a mesma exigência de uma terraplenagem, e pela mesma razão.
Fechar a cava com o próprio entulho é o atalho mais comum desse serviço, e o mais caro no total.
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