Existe uma regra de ordem que resolve a maior parte dos problemas desse serviço, e ela é curta: a viga sai antes do pilar.
O motivo é que a relação entre os dois não é de mão única. O pilar recebe carga da viga, isso todo mundo sabe. O que se esquece é a outra metade: a viga trava o pilar na horizontal.
Um pilar sem as vigas dele deixa de ser aquele pilar. Vira uma peça alta, esbelta e sem contenção lateral, com capacidade muito menor do que a de projeto.
Um pavimento com pilares de pé e vigas já removidas é o arranjo mais perigoso que se pode montar numa estrutura de concreto, e ele aparece com frequência, porque parece progresso.
A ordem dentro do pavimento
Ela decorre do caminho da carga, invertido:
- laje, que descarrega nas vigas
- vigas, que descarregam nos pilares
- pilares, que a essa altura não recebem nem contêm mais nada
Inverter qualquer par cria uma estrutura intermediária que ninguém dimensionou:
- laje sem viga fica sem apoio de borda
- viga sem laje perde parte da seção que trabalhava junto com ela
- pilar sem viga fica sem travamento
Não é preferência de método. É a única sequência em que cada elemento permanece numa condição prevista por alguém.
A armadura da viga está concentrada onde ninguém espera
A intuição diz que o meio do vão é a parte mais solicitada, e portanto a mais armada. Na demolição, a experiência contradiz isso.
No meio do vão a viga precisa de armadura na face inferior, para o momento positivo. Os estribos são mais espaçados.
Nos apoios somam-se duas coisas: a armadura superior, de momento negativo, e o adensamento dos estribos por causa do esforço cortante, que é máximo ali.
O resultado prático:
- o trecho central fragmenta com bem menos esforço
- a região do encontro com o pilar é a mais trabalhosa da peça inteira
- estimar a viga por uma média esconde onde as horas vão
É por isso que atacar pelo centro é mais produtivo, quando a estática permite.
Biapoiada e contínua não se cortam do mesmo jeito
Aqui está a verificação que precede o corte.
Viga biapoiada. Vence um vão entre dois apoios e não interage com os vizinhos. Cortar no meio do vão libera a peça sem afetar nada além dela.
Viga contínua. Atravessa vários apoios e trabalha como um conjunto. Cortar no meio de um vão redistribui momentos nos trechos vizinhos, e pode inverter o sinal do esforço em regiões que não têm armadura para recebê-lo.
A distinção aparece no projeto, quando existe, e visualmente na continuidade da peça sobre os apoios. Fazê-la leva minutos; não fazê-la produz fissura em trecho que deveria permanecer intacto.
O pilar isolado é um problema de direção
Quando chega a vez do pilar, há dois caminhos, e a escolha é de espaço:
Tombamento induzido. Enfraquecer a base de forma controlada de um lado, para que a peça caia na direção livre, com a máquina posicionada fora dessa direção e ninguém no raio de tombamento. É rápido, e exige área.
Fracionamento de cima para baixo. Reduzir o pilar por trechos, começando pelo topo. É mais lento e não depende de espaço livre. É o caminho quando há estrutura, via ou divisa por perto.
O erro característico é o intermediário: enfraquecer a base sem definir a direção. A peça cai, só que para onde ela decidir.
Consolo, viga de transição e protensão
Três casos que fogem da regra geral e valem identificação prévia:
Consolo. Elemento em balanço saindo do pilar, que sustenta viga ou peça pré-moldada apoiada nele. Ele não tem apoio do outro lado, e carregar sobre um consolo já parcialmente demolido é receita de queda.
Viga de transição. Recebe pilares que não descem até a fundação, redistribuindo a carga deles. É a peça mais crítica de qualquer estrutura que a tenha, e removê-la fora de sequência afeta tudo que está acima.
Peça protendida. Contém cabos sob tensão permanente. O indício é a proporção: altura pequena demais para a distância vencida. Exige identificação do traçado e alívio controlado antes de qualquer corte.
Os três têm em comum o fato de não se distinguirem por aparência. Só o levantamento os encontra.
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